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quinta-feira, abril 12, 2007
S
Ontem e hoje, li uns artigos na Folha de S. Paulo que valeram a pena. Um deles falava sobre o Jesus de chocolate e criticava não o artista (pelo menos não diretamente), mas o diretor da galeria que expôs - e depois teve que deixar de expôr - a obra. Foi uma surpresa, digamos, porque o que se esperava em artigos sobre o assunto era uma crítica à obra ou uma crítica aos críticos. Bem, sem mais enrolações, trechos logo abaixo. (Fiz vários pequenos cortes, então deixei pra lá os "(...)"s) " Passei a minha Páscoa a pensar em chocolate. Não falo em ovos de chocolate, o único símbolo realmente sacro que ocupa a imaginação popular durante a quadra. Falo em Jesus Cristo "lui même", nu e em plena crucificação, transformado em gigantesca escultura de chocolate pelo artista Cosimo Cavallaro em Nova York. A idéia, creio, era exibir a obra em galeria da cidade. A cidade não gostou da proposta, organizações católicas marcharam contra e a galeria suspendeu a exibição. E o diretor da galeria bateu com a porta em gesto melodramático, alegando que a obra de arte era meditação "corajosa" e "original" sobre o tema da Paixão. Eu não pretendo incomodar a sabedoria dos críticos. E, pessoalmente falando, é indiferente para mim um Cristo em madeira, latão ou chocolate, embora o chocolate seja mais comestível. Em momentos assim, é preciso lembrar P.T. Barnum e sua frase de que nasce um otário a cada minuto. Acreditar, no início do século 21, que uma representação heterodoxa de Cristo é um ato "corajoso" e "original" pressupõe um irracionalismo digno de qualquer fanático. Em 1850, talvez fosse verdade. Aconteceu com John Everett Millais, que apresentou o seu "Cristo em Casa de Seus Pais". Na obra, Jesus surge no centro da oficina do pai, depois de um pequeno acidente manual durante o trabalho de carpintaria. Em 1850, o quadro era "obsceno e repulsivo". Porque Jesus, o Messias, era apresentado sem nenhuma dignidade bíblica, em ambiente oficional. No fundo, humanizado como se fosse apenas um pobre carpinteiro na pobre Galiléria romana. Passaram 150 anos. A "blasfêmia" transformou-se numa forma ortodoxa e preguiçosa de expressão artística. Hoje, Jesus Cristo em chocolate não é "corajoso" ou "original". É o contrário disso, porque o artista sabe que o gesto pode despertar alguns protestos religiosos; mas não desperta, como as charges de Maomé, a vontade dos fundamentalistas em matá-lo. Aliás, falei em Maomé e falei bem: se a arte serve para sacudir consciências e provocar os tabus majoritários, "corajoso" e "original" seria apresentar o profeta muçulmano em iguais preparos, de preferência durante o Ramadã. Eu pagava pra ver, embora ter cadáveres a boiar na consciência não seja a minha praia. "
De fato, como em muita arte contemporânea por aí, parece que o artista teve preguiça de se aprofundar em qualquer coisa. Páscoa = Jesus + coelho + chocolate, então esquece o coelho (que é mais complicado) e vamos pro Jesus + chocolate. Vai ser polêmico, claro, porque os religiosos que vão protestar (e com certeza vai haver protestantes - sem trocadilho) também têm preguiça de pensar sobre seu protesto. Exemplo. Um dos dois motivos principais dos protestos era a nudez. Como se em séculos anteriores a Igreja não tivesse mandado "retocar" séculos de obras passadas onde ele era retratado crucificado nu. Como se os romanos realmente se preocupassem em botar uma tanguinha nas pessoas que eles penduravam até a morte, em público, com estacas nas juntas. Afinal, torturar, humilhar e matar tudo bem, mas fazer isso sem tanguinha é obsceno. (Aliás, parece que esse pessoal se acostumou tanto a ver a crucificação como uma "cena sacra" que ela perdeu o teor de tortura, sanguinolência e morte. E de humilhação.) Situação parecida, por motivos parecidos, aconteceu (e vai continuar acontecendo) sempre que alguém representou, artisticamente ou historicamente, Jesus como árabe, ou negro, ou qualquer-coisa-que-não-branco. Concordo com o João Pereira Coutinho (autor da coluna, eu não citei?), sobre a preguiça da arte contemporânea, mas gostei de uma provocação que o tal Cavallaro fez ao comentar os protestos, quando falou que "sabia que iria criar polêmica. Afinal, é de chocolate, ele está nu, e, chocolate é escuro, né?". Eu sei, ele não falou em preguiça da arte contemporânea, mas eu estendi um pouco. É que não é só blasfêmia; todo esse papo contemporâneo de que quem interpreta a obra é o público, não o artista, pode ser muito interessante, mas também dá margem pra muito "artista" preguiçoso e raso, que faz qualquer coisa de "feio" ou "inusitado" e finge que a partir daí vai surgir uma reflexão profunda. Qualquer cocô de cachorro na calçada faz as pessoas pensarem*; pensar algo relevante, que contribua para nossa existência, ou mesmo algo que persista depois de sair do campo visual (ou auditivo, etc.), é outro papo. Claro, algumas obras fazem isso, mas outras têm tanta relevância artística e cultural quanto uma rodada de adedonha. Aliás, menos. Minha próxima obra não-realizada vai ser uma letra grande num fundo branco. E aí na saída da galeria, o público recebe um papelzinho para comentários escrito: NOME | CEP | CARRO | OBJETO | FRUTA | ... * - claro que elas não dão muita atenção a esses pensamentos, porque geralmente o predominante é "desviar pé". Mas basta não estar no seu caminho, e já podem vir outros: "de cachorro mesmo? Vira-lata ou de madame-sem-noção-de-coletividade? De onde veio e pra onde foi? Aliás, de onde eu vim, e pra onde eu vou? Quem sou eu? Qual a resposta definitiva para a Vida, o Universo, e Tudo Mais? Como assim, '42'?".
posted by Badá 11:03
1 Comments:
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Alias, cade o RSS do blog??
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